sábado, 9 de setembro de 2017

Vidas engarrafadas


Pode existir algo mais deprimente que um engarrafamento em um dia de sol?

Ok pode existir sim mas sem dúvidas que nas mazelas cotidianas dos corres da vida ele merece um lugar no top dez. 

Houve um presidente brasileiro, coincidentemente xará meu, que nos legou uma pérola: "governar é abrir estradas". Taí uma frase de cunho metafísico que permite diversas interpretações e especulações e nada de quer reduzí-la, dada uma certa descrença com os políticos brazucas, a tão somente como uma possibilidade de alegrar o espírito e engordar a conta bancária de empreiteiros e donos de concessionárias.

Claro que se pensarmos na transamazônica, obra colossal que liga o nada a lugar nenhum, podemos mais uma vez questionar se precisamos tomar certos rumos na vida. Ou somos apenas tangidos por habilidosos e implacáveis vaqueiros.

Quando li On The Road fiquei com a sensação que rodovia, automóvel, significava liberdade, um modo de vida, uma contestação de valores...talvez nos idos de 1950 sim. Talvez chegue uma época em que o possuidor de um automóvel venha a ser visto como um pobre estúpido, por mais espaçoso e potente motor que fosse o seu modelo.

Pior do que uma dependência do automóvel, na qual a pessoa desaprende até a ir na padaria caminhando, ou acha impensável a possibilidade de se ir a algum evento que não seja acoplado ao seu meio de transporte, é se sentir como uma extensão do veículo ou vice-versa: "algum idiota amassou meu parachoque no estacionamento"...Errado! amassou o parachoque do carro! Parece ser uma coisa simples mas não é!

Uma sociedade baseada em pneus é uma sociedade que segue para bater as bielas, fundir o motor e tudo o mais.

E nos engarrafamentos constantes, diários, previstos, experimente observar a cara dos motoristas, geralmente solitários, já vi caras melhores em velórios e filas de hospitais.

Mas o ápice da tristeza e revolta com esse modo de ser e sobreviver - sim, sobreviver miseravelmente  por mais que seu possante esteja na moda - é quando aparece uma ambulância com suas sirenes avisando que tá com presa e tem uma vida em jogo. O esforço pra facilitar sua passagem é mínima pra não dizer nulo; subir no meio - fio ou na grama pra facilitar a passagem as vezes acontecem só muito depois (nessa situação alguns segundos podem ser decisivos), da insistência e pra se livrar daquele barulho chato e impertinente, e não pela vida que talvez esteja mais pra lá do que pra cá. Não existe solidariedade nos engarrafamentos; cada um com sua garrafa...em algumas veias já correm óleo sintético e alguns corações pulsam como pistão.Resultado de imagem para engarrafamento df










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