Difícil definir uma figura como, fico com a proximidade da definição dada pelo amigo filósofo Eliseu Amaro há alguns anos: "um cara muito inteligente, extremamente criativo e que criou um caminho único na Música popular Brasileira; agora, ele tem umas saídas pra espiritualidade de Era de Aquário, misticismo esotérico que hoje em dia não dá mais pra embarcar". E não dá mesmo. Não tem como esperar pela carona do moço do disco voador e muito menos ficar vendo o bem vindo de braços e abraços num romance astral...
Mas Raul foi muito mais que um bicho-grilo mistificador. Sua anárquica Sociedade Alternativa onde fazes o que tu queres há de ser tudo da lei, colocando em xeque toda autoridade imposta de cima para baixo não passaria despercebida pela ditadura dos anos de chumbo. Crítico social ferino e de sutil ironia, como a sua - cantada por Sérgio Sampaio - Todo mundo está feliz ou ainda a inquietante Metamorfose Ambulante, mais uma vez colocando a se perguntar pra quê métodos, classificações ou determinismos quando se trata de nossa existência.
Mesmo com as homenagens post-mortem Raul segue sendo um grande injustiçado. Duplamente injustiçado. Por um lado - mas esse com certeza o cara que ousou fundir rock'n'roll com baião não esperaria grande coisa - a grande crítica "especializada", homenagear nas coxas Dom Raulzito, de forma caricata, folclórica, apenas um irreverente que acabou por afundar nas drogas ilícitas e no licituoso álcool.
Por outro lado - e esse certamente haveria daria uma ponta de tristeza no Maluco Beleza - o injustiçamento dado por seus fãs, seus "seguidores", que aparentam criar um culto a Raul, um "Raulseixismo" onde os seguidores entoam hits do cantor, raulseixistas que se preza em qualquer show que esteja presente sempre há de gritar o famoso "toca Raul" em algum momento. Os iniciados sempre com óculos esculos, cabelo desengrenhado e barbicha...aproximando ao máximo em aparência do ídolo. Uma caricatura.
Assim como os "especializados" os "raulseixistas" também apenas folclorizam a arte do ídolo. Mesmo com refrões e letras inteiras de sucessos na ponta da língua esquecem que antes de ler o livro que o guru lhe deu você tem que escrever o seu.
Melhor do que cultuar Raul na acomodação da cerveja ou na pose de mais filhote do maluco beleza que não tem maluquez e muito menos beleza, seria "culturar" a fundo sua obra, compreendendo todo um engajamento visando a transformação social, política e cultural. Afinal, falta de cultura pra cuspir na estrutura é que era o x da questão. Se acomodar nesta estrutura carcomida e carcomizadora na qual o grande Raul, mais do que cuspir, derrubar e superar, era o grande sonho do Maluco, um sonho que ele não queria sonhar só, mas sonhar junto, pois um sonho que se sonha junto é realidade.
https://www.youtube.com/watch?v=w4Pv286KcUY
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